segunda-feira, 27 de julho de 2026

Ele se foi.

 

Desta vez, ele não voltou. Não foi como das outras vezes.
Até então, era a certeza de que ele ia e, pouco tempo depois, ele retornava aos poucos.
Seu retorno era tão certo que era possível arriscar, contando que nunca o perderia.
Hoje, a tristeza não é passageira.
De todos os medos, o maior se realizou. E ele não foi. Ele sumiu, apagou-se.
Não se pode esperar voltar quem já não é. Não se pode mais ter certeza daquilo que, certamente, foi extinto.
A felicidade que o movia, já não é.
E mesmo que ele esteja ali, já não é mais ele.
O sorriso se foi. Não é mais verdadeiro, mesmo estando lá. Mesmo parecendo com ele.
A pior das notícias, o maior medo. A grande decepção e a raiva de ver que a arrogância foi maior que a sensatez e não ouviram conselhos e fizeram o pior acontecer.
E quem sofre agora sou eu. Que pensava ter encontrado definitivamente a felicidade.

Mas meu sorriso… se foi.

27/07/2026 - feliz aniversário. 

                                                             Stream Drip - Dee ft Mr. YD & Millz.mp3 by H T C | Listen online for free  on SoundCloud 

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Sorriso dolorido

Quem se importa com o que você sente?
Quem se importa com o que passou?
Pouco se importam se, de repente,
Se importam mais com quem o humilhou.

Seus sentimentos não interessam,
Nem sua tristeza pelo que ouviu.
E todos agora muito se apressam
Em perdoar a quem o feriu.

A minha ferida continua aberta
Doendo muito dentro do peito.
Que seja então esta a minha oferta:
Aceitar calado o que não tem jeito.

Mas não me pergunte de minha tristeza
Quando o sorriso me sai minguado.
É que me dói, com toda certeza,
Sorrir enquanto sou desprezado.

Perigoso Narciso

 Havia um jovem, de nome Narciso, que era extremamente belo. Entretanto, apesar de muitas pessoas disputarem seu amor, ele não dava atenção a ninguém. Pouco se importava com o sentimento alheio e a mitologia revela que houve quem morreu sem comer e beber devido seu desprezo. Narciso, porém, pouco se importou.
Mas um dia, ele se deparou com um lago maravilhoso, nunca tocado por mãos humanas e viu, nas límpidas águas, o ser humano mais belo jamais visto antes. De imediato, apaixonou-se, sem se perceber que era pelo seu reflexo que nutria aquela repentina paixão.
Sem poder abraçar ou tocar aquele belo ser, ficou às margens do lago definhando, sem se alimentar, até que morreu buscando o amor daquele que não era senão sua própria imagem refletida nas águas do lago.
Hoje, há narcisos em todas as partes e, assim como o personagem mitológico, também consideram-se extremamente especiais, superiores, importantes e belos.
Desprezam as outras pessoas, a quem consideram inferiores.
Não têm empatia e são incapazes de se preocupar com o sentimento que despertam em outros - quer sentimentos bons ou ruins. Isso a eles pouco importa. Porque o que interessa é nutrir-se da energia dispendida pelas pessoas que se importam com eles.
Nada do que os outros fazem tem valor, uma vez que aquilo que eles fazem é sempre mais e melhor. Tomam conta da conversa, puxam os holofotes para si.
São exemplares e amáveis para a sociedade exterior, mas terrivelmente tóxicos aos que convivem com eles em intimidade (quer relacionamentos afetivos, sociais ou de trabalho).
Não admitem, em hipótese alguma, a ideia de que tenham cometido algum erro, mesmo que os tenham cometido, e sempre têm uma justificativa para o que aconteceu. Sempre o erro é causado por falha de outra pessoa.
Distorcem a verdade para se adequar às suas histórias.
Manipulam o sentimento de outros para que se tornem suas presas, que fazem de tudo para agradá-los e recebem migalhas de afeto em troca. E tal afeto, pasmem, não é movido por sentimento, mas é uma atitude pensada para manter a presa sob controle.
O narcisista é incorrigível e os profissionais de saúde são unânimes em dois pontos: primeiro, estes não têm cura e, segundo, o melhor é afastar-se deles.
Isso porque é perigosa a convivência com um narcisista. A vítima se anula, rebaixa, tenta se encaixar no mundo sujo de adulação que lhe é exigido. E nunca, exatamente nunca, conseguirá atender a metade das expectativas, pois é justamente em culpá-la, acusá-la e rebaixá-la que está o foco do narcisista. Somente rebaixando quem lhe quer bem é que o narcisista consegue forças para sobreviver.
Imagine você (porque eu sei como é) ter uma pessoa na vida que se encaixa na frase atribuída a Madonna: "Listen, everyone is entitled to my opinion" (algo como: "Ouçam, todos têm direito à minha opinião").
E encerro orando. A mesma oração de Chico César: "Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa, da bondade da pessoa ruim. Deus me governe e guarde, ilumine e zele assim..."



quinta-feira, 20 de julho de 2023

Poema Combate à Exploração Sexual de Crianças



No céu, havia uma estrelinha
E Deus apontou para ela e disse: “Vá para a Terra e seja feliz”.
Eu não vim na Terra para sofrer.

Um anjo sem asas, uma pequena semente.
Uma estrelinha, um pequenino ser.
Nasci frágil, indefeso e inocente.
Estou chegando, mas não vim para sofrer.

Sou puro, sou casto, sou seu protegido
Sou uma criança, eu confio em você.
Dependo de amor, quero ser seu querido.
E dou minha vida para você proteger.

Procuro seu colo qual filhote ao ninho.
E em qualquer perigo procuro sua mão.
Junto ao seu peito quero encontrar carinho.
Na sua altura, eu procuro proteção.

Mas minha inocência uma hora acusa
Que este carinho não parece normal.
A mão que afaga, de repente, abusa
Afaga demais, e me faz sentir mal.

Olhos que brilhavam, agora olham de lado.
Sua mão me afagava agora causa estranheza.
Seu beijo tão doce agora está mais molhado
O carinho passou a ter indelicadeza.

E o beijo passou a ser noutros lugares
Os afagos agora me causam arrepio
Titio, seus abraços me tiram os ares
Seu toque em meu corpo me deixam arredio.

Me solta… não quero…
Me deixa… me solta…
Não beija… que nojo…
Me deixa… que nojo, que nojo, que nojo, que nojo… QUE NOJO!

Não, você me sufoca, eu não quero.
Me sinto mal, não está certo, mamãe nunca fez assim.
Não põe a mão, não encosta, sai de perto, que cheiro de suor, que gosto salgado, que quer comigo?

Sou estrelinha, quero carinho, quero amor
Estou com medo, quero distância, mas que horror!

Não quero seu toque, não quero seu beijo, não quero sua boca.
Que cheiro amargo, que gosto nojento, NÃO QUERO SUA BOCA!

Shhh, meu amor, não fica assustado
Titio tá aqui, não precisa ter medo.
Te amo demais meu pequeno adorado
Mas isso agora é nosso segredo.

Só faço essas coisas porque tenho amor
Você é tão lindo, tão doce, tão puro.
Mas não vai contar para seu professor
Senão você vai estar em apuro…

Mas não quero, sai daqui.
Eu não gosto, me deixa ir.
Tô com medo, me solta.
Cadê a mamãe que não volta?

Ah, um vulto, quem chegou? Ai, MAMÃE!

Me salva mamãe, que estou sozinho
Estou fraco, com medo, me dá seu carinho.

Mamãe! Vem fazer com que ele pare
Eu não quero mais que ele me encare!

MAMÃE! Mamãe! Mamãe! Mamãe…

Shhhh! Seja boazinha, minha doce estrelinha.
Titio só faz isso porque ele te adora!
Ou você quer que mamãe acabe sozinha?
Você quer me ver triste porque titio foi embora?

Shhhh! Fica quietinho, o titio nos ama
Se ficar quietinho logo chega ao fim
Mamãe tá aqui, precisar me chama
Mas deixa o titio te beijar um “poquim”…
Shhhh… shhhhh… shhhhh...

Tá bom, mamãe, eu deixo…
Mas por dentro posso pedir socorro?

Vizinha… socorro… escuta meu choro.
Professora… socorro… me veja amuado.
Diretora… socorro… nota meu silêncio.
Enfermeira… me ajuda… olha os meus roxos.
Doutora… me ajuda… meu corpo tá dolorido.
Promotor… me ajuda…
Tia… me ajuda…
VOCÊ! SOCORRO! ESTOU SOZINHO! ME AJUDA!

No céu, havia uma estrelinha.
Que Deus apontou e falou: “vá para a Terra ser feliz!”

Eu nasci pra sorrir, não pra sofrer.
Senão, pouco a pouco, eu vou… morrer.

PC Chiorato - mai/2017

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Joguinhos emocionais

 Não são poucas as postagens que se veem por aí em redes sociais ensinando a arte da conquista, como se tornar um macho alfa ou uma mulher poderosa. O que ensinam são, de qualquer forma, jogos emocionais que desarmam gatilhos e despertam o interesse da outra pessoa. Em sua grande maioria, são brincadeiras com as emoções alheias.

Deixar de responder uma mensagem. Sumir propositalmente. Responder secamente. Não demonstrar interesse. Fazer mistério. Ter outras pessoas... tudo brincadeiras de salão que têm seu quê de magia, mas são, inquestionavelmente, truques.

"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo", escreveu Drummond. É o quanto basta.

E vamos aos fatos: quando a pessoa quer, ela faz acontecer. E, para acontecer, tem que haver vontade de ambas as partes.

Ausente-se, sim, mas porque você tem algo importante para fazer. Trabalhar, divertir-se, praticar esportes, viver sua própria vida e não ficar vigiando uma tela de smartphone à espera de uma reação, ou postagem, ou curtida.

A onda do "golpe tá aí, cai quem quer" é o maior exemplo da futilidade a que as pessoas se sujeitam. Golpe é lindo, quando em uma arena, ringue, octógono, onde ambos os participantes estão preparados para dar e receber seus golpes. Quando apenas um está intencionado a aplicar golpe (e refiro-me agora ao campo das emoções), a outra parte pode sair extremamente ferida.

Mas o melhor conselho que já li a respeito do relacionamento e da arte da conquista, sem dúvida é: torne-se uma pessoa atraente por criar valor a si próprio, ou seja, dedicando-se a sua carreira, cuidando de seu corpo, tendo hobbies, estudando, crescendo profissional, emocional e humanamente. Isto atrai pessoas boas para junto de si.

No mais, fica uma frase que tenho usado muito: "ausência revela uma pessoa interessante a princípio e, logo em seguida, comprova que ela é desnecessária".



sexta-feira, 21 de maio de 2021

POEMA: Eu por mim e só

Só quem me ama sou eu, ninguém mais.
Eu que me aguento com choros, chatices e ais.
Pois tantos sorrisos vazios, suspiros, olhares e planos
Foram fogo em palha ateado: hoje é; agora, não mais.

Sou eu que me amparo, eu que sinto os meus danos
Que penso as feridas, que me suporto por anos
Sou eu quem apoio, importo com projetos meus.
Meus atos nunca foram como se de ciganos.

Eu fui crente em mim, enquanto os outros, ateus.
Fui único e me fizeram mais um dos camafeus.
E, imperdoável, eu jamais, repito: jamais
Fiz mal ao meu peito dizendo-me um "adeus"...



terça-feira, 18 de maio de 2021

Cada um em seu asteroide.


"Sou um animal sentimental me apego facilmente ao que desperta o meu desejo"
, foi o que cantou Renato Russo.

No incessante desejo de encontrar alguém igual a mim, que eu costumo chamar de "a busca por alguém que seja de meu planeta", acabei por encontrar alguém que eu supostamente imaginei ser um reflexo. Mas, sejamos francos, no fundo, no fundo, todos somos solitários, vivendo como se não o fôssemos, entre outras pessoas também solitárias, todos tentando provar que estamos acompanhados. E, quer saber? Talvez não haja um planeta meu, de onde eu tenha vindo. Somos únicos, não é mesmo? Essa imparidade é fascinante e, ao mesmo tempo, triste.

Somos seres em eterna mudança, e nunca alguém será eternamente o amor da vida de outrem. Porque um dia acordamos mudados e as diferenças podem ser fatores incontestáveis para um afastamento. Pode demorar, pode ser rápido, pode ser instantâneo. A pessoa que suspira apaixonada, de um dia para outro descobre que Química só é uma ciência exata nas universidades. Eu só continuo achando que deveria ser algo de duas mãos, dois sentidos. Realmente, não é uma ciência exata e nem justa. Sequer faz sentido.

Verdade é que pessoas especiais fazem a gente enxergar fisicamente o que fora escrito na Literatura, personificam as palavras e pensamentos dos poetas de outrora. Os poemas, histórias, pensamentos passam a fazer sentido em determinadas pessoas. "Uma menina me ensinou quase tudo o que eu sei. Era quase escravidão, mas ela me tratava como um rei. Ela fazia muitos planos, eu só queria estar ali, sempre ao lado dela. Eu não tinha aonde ir", mais uma vez Renato cantou.

E descobri que não era sem motivo que Saint-Exupéry colocou o Pequeno Príncipe para morar em um minúsculo asteroide. Era ele, três vulcões, alguns baobás e sua rosa. Ah, algumas larvas que ele matava mas deixava sempre duas ou três, para virarem borboletas. Não havia outro dele em seu planeta.

E justamente quando vi aquele sorriso que era tão fácil de brotar no rosto se tornar em uma expressão sem expressão (tentem entender isso, pois foi exatamente assim que notei acontecendo) vi que vivemos em asteroides. Vi que somos nós com nossas rosas e que rosas não são pessoas (são a imagem que criamos das pessoas) e que nada em nosso planeta é igual a nós e que não há, no universo, alguém semelhante a nós.

E no fim das contas, não é a inteligência (que acho fascinante, meu Deus, como amo pessoas inteligentes!), não é a beleza, não é a história, não são as atitudes. São, sim, as emoções que vêm cada uma de um planetinha diferente.

Ainda sou relutante em aceitar que não haja outros de mim. Assumo minha burrice na teimosia de procurar, mesmo sabendo que não há muita esperança. Como o aviador de O Pequeno Príncipe, que levava consigo o desenho de infância de uma cobra engolindo um elefante. Todos achavam que o desenho era um chapéu. Ele guardava o desenho e interagia bem com todos, mas decepcionado de não ter tido mais uma vez a oportunidade de encontrar alguém com quem pudesse ser ele mesmo. 

Compreendi isso. Mais uma vez, a "pessoa especial" só enxergou um chapéu.

Eram sorrisos, eram expressões, palavras, canções, pensamentos, desejos, intenções, planos. E era Renato cantando: "e depois do começo, o que vier vai começar a ser o fim".

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Algumas verdades de que precisamos nos lembrar


A ansiedade arrebenta com a gente. Primeira coisa é o celular que não sai da mão, olhando "onlines" e "offlines" e imaginando inúmeros porquês. As ausências ou inatividades de certo perfil. Primeira coisa é jogar o celular a pelo menos dez metros de distância, silenciá-lo. Nada de pegar e brincar de "pick your poison" entre face, whats, insta, twitter, messenger.

Resolvi hoje escrever em meu blog. Tenho dedicado muito tempo escrevendo em um diário digital (monkkee.com, muito bom por sinal) e ele, prometendo ser muito seguro, tem recebido todas as minhas confidências que até o Google mataria para saber. Entretanto, ao mesmo tempo em que escrevo quilômetros infinitos de textos, meu livro está parado e meu blog está realmente uma "web", ajuntando teias.

Tenho lido e estudado muito e constatei algumas migalhas de pensamentos que, ao contrário de migalhas de afeto, podem trazer-nos algo de útil na vida. Vou jogá-las a seguir, soltas e sem critério. Leia despretensiosamente.

1. As pessoas não estão preocupadas com você.
Talvez sua mãe. No mais, todo mundo tem vida e pensamentos particulares com os quais se preocupar. Amigos querem você bem, mas não melhores do que eles. Parentes estão dispostos a ajudar, desde que seus problemas não tragam turbulência à vida deles. Isto posto, pergunte-se: por que se preocupar com o que os outros vão falar ou pensar de suas decisões e atitudes?

2. Sempre vão falar (mal).
Se você namora, ou se não namora, irão falar. Se for com uma mulher, com um homem, com alguém mais jovem, alguém mais velho, alguém da mesma idade... vão comentar. Se mudar de emprego, arrumar um emprego, deixar o emprego... advinha... falarão. E qualquer coisa que faça ou não, sempre irão falar. E sempre haverá um "mas", um "senão", um "porém" para fazer um comentário negativo, ou ácido, ou desdenhoso, ou maledicente. E à noite, enquanto você não consegue dormir por ter tomado uma decisão errada porque estávamos preocupados com a opinião alheia, estas pessoas estarão dormindo tranquilas.

3. Não faça joguinhos.
Quer no relacionamento afetivo, familiar, profissional, fraterno... ao lidar com um ser humano, seja apenas um ser humano (parece Jung falando, parafraseei). Agir utilizando gatilhos psicológicos ou técnicas de controle comportamental pode ser perigoso para ambos os lados da interação. Manipulação é pior, é covardia. O famoso "golpe" só é legal em um ringue, quando os dois envolvidos estão preparados para dar e receber golpes. Do contrário, não tem graça e é um traço de sociopatia.

4. Tudo passa.
Já escrevi um texto todo sobre isto. Mas sempre é bom recordar que as coisas ruins passarão - por isso não devemos desanimar ou desistir. Da mesmíssima forma, as coisas boas também passam - então não se iluda com nada e ninguém. Pessoas saem de sua vida (inclusive quando você não está preparado para isso, porque sequer chegaram a entrar, apesar de você desejar muito). Riqueza se gasta, emprego se muda. O clima é um sempiterno "tempestade/bonança/tempestade".

5. Homem também chora.
Quem cozinha sabe que a panela não pode ficar totalmente tampada quando levanta a fervura. Se não tem válvula para escapar a pressão do vapor, ou o conteúdo derrama, ou a panela explode. Demonstrar sentimentos não é fraqueza, é grandiosidade. Deixar-se dominar por eles, aí sim, é fraqueza. Ter controle emocional difere de demonstrar sentimentos.

6. A pessoa mais importante é você mesmo.
Cuide-se. Não implore afeto, afeição, oportunidades, cuidados ou soluções inerentes a sua vida. Tome a maioria de suas decisões pautado no seu bem maior. Não se sabote para fazer a vontade de outro.

7. Não machuque ninguém.
Se dói em Chico, dói em Francisco.

Não vou me estender muito. Hoje eu só queria mesmo era escrever para distrair, porque o pensamento está há 135 quilômetros de distância. Talvez eu seja mais coerente na próxima.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Odeio despedidas


 "Não olhe pra trás, odeio despedidas. Diga até mais, mesmo se for adeus".

Esta frase é da canção "Até Mais", gravada em 1999 pelos Engenheiros do Hawaii e sua letra tem muito a ver com meus sentimentos e atualmente até mesmo com minha vida e seus acontecimentos.

Minha depressão é intrínseca às despedidas. Ainda é muito viva em minha memória as despedidas de meu pai para ir trabalhar em outra cidade. Eu sabia que ele estaria de volta na outra sexta-feira, mas esta certeza de breve retorno nunca foi o suficiente para que eu não chorasse todo domingo à tarde quando o via sumindo na curva da esquina para ir à rodoviária.

Nunca gostei de dar tchau para as pessoas. Sempre olho para trás quando me despeço de alguém. Sempre olho a pessoa indo embora quando ela diz até logo. E isso sempre me machuca.

Odeio ir a velórios. E não por causa da tristeza que permeia as pessoas. Mas é o porque naquele momento estamos nos "despedindo" da pessoa que faleceu.

Odeio ir a hospitais. Também não por causa da tristeza. Mas porque visitamos o doente e depois temos que nos despedir dele. E eu queria ficar, indiferente de quem seja o paciente. Só não quero me despedir.

Eu geralmente não me despeço, eu desapareço silente. Tchau, até logo, até breve, até mais, se cuida, falou - todas estas expressões são como chibatadas emocionais em minhas costas. A palavra "adeus" então, é um tiro de misericórida. Elas me entristecem, tiram-me o sono, deixam-me cabisbaixo e pensativo.

Estou solo. Não foi uma escolha minha, só respeitei.

"Não foi assim que eu sonhei a nossa vida. 
A despedida seria até logo mais.
Mas a vida não permite ensaios..."

Aconteceu. Assim como aconteceu uma série de eventos que acabaram me transformando em persona non grata a um sem número de pessoas. E ninguém, exatamente ninguém, faz idéia de quanto dói em mim quando alguém me vira a cara ou me ignora propositalmente. Já escrevi em outros textos deste blog que a psicóloga informou-me que tenho a sensibilidade aflorada e que os sentimentos, inclusive as dores, são multiplicadas por 10. Ninguém pelo visto sabe o que isto significa. Viram a cara sem dó. Machucam-me como se desferissem punhaladas.

"Não olhe para mim como se eu fosse invisível
Como se fosse possível enxergar nessa escuridão."

A dor nos torna mais fortes. É assim nos treinos físicos. Está sendo assim na vida. Fortalece-me pensar nos finais de tarde: momento mais triste do dia, quando o sol se despede. E tudo o que se despede me fere. Estou aprendendo a dizer adeus sem sofrer com isso. E finalmente vai fazer sentido o trecho final da canção que mencionei lá no início:

"Não podia durar para sempre,
Não podia ser diferente,
Não poderia ter sido melhor


CLIQUE AQUI para ouvir "Até Mais"

sábado, 2 de janeiro de 2021

Pessoas fazem mudanças, não os números.

 Ontem, tinha 500 amigos. Hoje, 500 pessoas não me olham na cara literalmente.

Com essa verdade pessoal eu inicio meu texto de hoje, que foi inspirado por uma frase que li nas redes sociais referentes à mudança de ano que aconteceu recentemente.

Na postagem a que me refiro, havia um calendário animado, e o autor escreveu uma frase, em tom de crítica, dizendo que o ano é apenas uma métrica temporal, e que não é ele que realmente muda para trazer alívio, mas são as pessoas que têm que mudar.

Isso deu um "bum" na minha mente. Fez-me pensar na verdade por trâs do texto e também em sua ignorância velada.

Sim, concordo que o senhor da mudança é o próprio ser humano, com sua capacidade de se adaptar às variações, de se reorganizar no caos, de criar novas lógicas para entender o inexplicável. Exatamente, é o ser humano que promove a metamorfose.

Mas a mudança que o mundo exige é em massa. E se não for posto um gatilho, o que vai acontecer é um choque de pensamentos.

O que quero é observar os fatos. Todo mundo estava acreditando que 2020 foi um ano ruim. E convenhamos, ele foi. Apesar de que temos de concordar que em partes ele foi saneador, tirando da vida das pessoas muitas das coisas que elas por si só não teriam coragem de deixar para trás.

Mas o ano trouxe muitas perdas, muita preocupação, mortes impensáveis. Foi em 2020 que sumiram os toques, os abraços, os apertos de mão, a proximidade, o contato. As palavras de ordem foram isolamento, sacrifício, aceitação, submissão.

Sim, concordo e muito de que não há magia em uma mudança de número. Por isso penso que 2021 é somente um ponto de encontro, um gatilho, um local de START: "vamos começar a ser felizes a partir de agora?". E todos respondem "Siiiiimmm". 

Assim se lida com massa. Então, convenhamos que  é necessário. Sei, 2021 é um número. Quando eu tiver minha casa, ela terá um número, e todos saberão que podem me encontrar lá. Se eu não tenho um número, não me encontram.

Um ano é um número. Mas... já que, mesmo a contragosto, 2020 podou tudo de nós e nos deixou zerados (e limpos)... vamos combinar de nos reencontrar em 2021?



segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

O que não humaniza, intoxica.


 Já tentou pregar utilizando uma chave de fenda? Talvez tenha até se machucado. Se não, ao menos a frustração foi certa.

E nesta linha de raciocínio, podem surgir várias perguntas com um sentido semelhante: já tentou comer isopor quando teve fome? Já cantou uma marchinha de carnaval no meio de uma discussão acalorada? Já ordenhou uma lesma?

JÁ TENTOU TIRAR A HUMANIDADE DE UMA PESSOA?

Não são poucas as vezes que ouvimos ou lemos a respeito de relacionamentos tóxicos. Pois bem, o que é tóxico mata. Aos poucos, o que é pior.

Neste relacionamento, a vítima se vê desprovida de seu principal direito: de humanidade, ou seja, de poder sentir e manifestar o que seu íntimo deseja.

Somos diferentes mas, como humanos, desejamos externar nossas emoções, sermos nós mesmos. Regras de convivência são, concordo, necessárias para uma vida social saudável. Mas impor restrições esdrúxulas e incompreensíveis em nome do que quer que seja é absurdo. 

Tolher a liberdade de uma pessoa punindo-a com um distanciamento social (e não me refiro ao Covid) somente para poder obrigá-la a agir conforme preceitos ou pensamentos impostos. É o marido que corta o cabelo da mulher para que ela, feia, não saia às ruas. Ou que a xinga, a ofende, a humilha. 

Um relacionamento tóxico faz a vítima achar que é a culpada. O mesmo relacionamento que tira da vítima todo e qualquer contato com outras pessoas e faz com que ela só tenha acesso ou contato com aquele ou aqueles que a oprimem, a criticam, não a deixam evoluir.

Você não vai estudar! Você não vai se vestir assim! Você não pode fazer isso! Você não pode pensar desse jeito! Você não pode ter amigos além de mim (ou de nós)! Você não pode nada além do que é o "melhor" para você! E quem diz o que é melhor para você sou eu, que te "amo"! Se não quer fazer o que digo, você não me ama, não ama a Deus, não se ama. Tome meu desprezo. Dane-se sua tristeza.

E a vítima não tem para onde ir, a não ser correr, submissa, humilhada e cabisbaixa, de volta para os braços do algoz que a acolhe e a abraça com a mesma força dolorosa e sufocante de sempre. Ela não tem o direito de sentir, não tem o direito de raciocinar e será novamente punida se discordar.

E ela deixa de ser humana. Pois tem de parar de sentir. Tiram-lhe a Poesia. Arrancam-lhe o sopro divino que a distingue de uma rocha.

Fuja disso. Os primeiros contatos são sempre falando de amor. Sempre. Tudo é bonito no início, sempre! Mas no momento em que você abdica de seu EU, e se afasta de amigos, familiares, de pessoas boas e passa a se tornar dependente... o amor passa a ser possessão. E a vítima começa a acreditar que ser somente espancada em vez de morta é uma prova de amor de seu possessor. Isso é real. Dane-se sua tristeza.

Isso é com relacionamentos. Isso é com amizades. Isso é com sociedades. Isso é com religiões.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Parábola do rio.

 Havia um rio. Limpíssimo. Puro e cristalino, refrescante e atraente, trazendo a pureza intocada desde sua nascente.

Às margens deste rio, no princípio, havia uma placa em que se dizia: "se está com sede, beba à vontade".

E as pessoas que encontravam o rio bebiam e saciavam-se. E voltavam.

Mas, um dia, e ninguém sabe qual dia foi ao certo, alguém observou as pessoas tomando da água do rio e imaginou que se usasse um copo, seria mais fácil. E começou a ser seguido por outros. E surgiram os "copistas".

Mas houve uma discussão entre os copistas e surgiram outros que defendiam que os copos deveriam ter um formato diferente, mais arredondado, e não poderia ser de plástico, mas de vidro, porque a água era pura demais para ser tomada em copo de plástico ou nas mãos (como era feito no começo).

E de discussão em discussão, surgiram vários defensores de várias ideias. Uns diziam que era preciso fazer uma dieta antes de tomar da água daquele rio, outros diziam que somente a água que eles pegavam no rio mataria a sede, outros defendiam que somente os escolhidos podiam tomar da água.

Teve quem cavou um poço do lado do rio para tomar a nova água, acreditando que o rio era falso. E sempre com seguidores fieis acreditando piamente em suas palavras.

Surgiram os "propagadores das águas puras", que distribuíam copos de pessoa em pessoa e afirmavam categoricamente que somente eles possuíam a água que matava a sede. E se a pessoa não se mostrasse digna, eles tomavam o copo e deixavam-na com sede.

Havia quem cobrasse pela água, pelo copo, pela roupa certa para beber. Havia quem criticava os outros bebedores de água, havia quem defendesse com unhas e dentes sua concepção de beber água. Havia discussões acaloradas e filosóficas sobre o conceito fluviológico do beber da água. Surgiram cursos de fluviologia para estudar o rio. Muitos começaram a traduzir a placa que estava na margem do rio para, assim, confirmar que somente seu conceito era o correto.

Todos tentaram inclusive represar o rio, para que somente eles próprios e seus seguidores pudessem beber.

Também havia quem negasse que o rio existisse. Mas que tomava de sua água escondido.

Contudo, quem olhasse de longe, isento dessa discussão toda, via o rio chegando limpo, passando pelo acampamento dos bebedores e saindo sujo do outro lado. Porque toda aquela briga formava muita lama nas margens do rio, sujando-o e ele só voltaria a ficar cristalino mais adiante, longe daquele povo.

Assim foi com o rio. Assim são as crenças humanas.

A água, entretanto, segue pura, gratuita e eficaz em sua essência. Sirva-se.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Sincericídio

 Quem fala a verdade, não merece castigo. Descobri que esse ditado popular era balela quando uma professora do primário (que porventura sempre pregou esse ditado popular) perguntou quem havia feito algo na sala de aula. Eu, lembrando das palavras dela, prontamente assumi meu erro. E tomei uma chamada de atenção pública que, para mim, na época uma criança empática e sensitiva, fiquei chateado por uma semana.

Mas a lição que aprendi foi importante. Não sou fã ou defensor da mentira. Mas aprendi que dizer a verdade abertamente e sem ter o devido cuidado pode machucar tanto quanto a mentira.

A sinceridade é uma virtude incontestável. Não se pode negar que uma pessoa ardilosa e desprovida de caráter jamais seria alguém com quem desejássemos nos relacionar em qualquer sentido que seja.

Contudo, quem nunca conheceu aquela espécie de pessoa que diz: "eu falo a verdade mesmo, doa a quem doer". E se mostra um ser intragável, que não mede as palavras, que ofende, que humilha, que envergonha os outros. Que expõe pontos de vista como verdades absolutas e inquestionáveis e se vangloria de falar tudo o que pensa e sente, mesmo que isso cause a derrocada de outro ou até mesmo a sua própria.

Falo hoje sobre o sincericídio. Termo relativamente novo, mas que retrata uma ação muito antiga, inclusive Oscar Wilde escreveu: "Pouca sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade é absolutamente fatal".

Não é porque eu sou um ótimo atirador que preciso provar isso atirando aleatoriamente nas pessoas. Não preciso provar minha sinceridade magoando alguém (ou magoando a mim mesmo). Sim, porque posso ser tão sincero que acabo expondo meus defeitos, minhas incapacidades, denegrindo-me e rebaixando-me diante de outros e isso é extremamente prejudicial. Sincericídio é tóxico.

Fundamental ter empatia. Devemos sim, ser verdadeiros ao expressar emoções, opiniões. Mas devemos acima de tudo preocupar-nos com os sentimentos alheios e como nossas "verdades" irão abalá-los.

Ter empatia não é simplesmente pensar: "Se alguém falasse isso para mim, eu não ficaria chateado". Ter empatia é colocar-se no lugar do outro enxergando com os sentimentos dos outros. Poetas e sensitivos não têm dificuldade em fazer isso. As pessoas mais brutas já precisam trabalhar melhor esse aspecto.

No final das contas, o fundamental desta vida são os relacionamentos, tanto os externos quanto o interno. Agir e se relacionar com alguém para que ambos sintam-se bem e felizes. E, sinceramente, danem-se os conceitos pré-moldados e estabelecidos por convenções fugazes e mutáveis. Fazer sorrir é tudo de que o mundo precisa.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Ingratidão

 Pensei bem. E cheguei à conclusão de que ingratidão tem muita relação com egoísmo. É sobre isso que vou escrever hoje. Tem muito a ver com a frase de Alexandre Dumas :"Há favores tão grandes que só podem ser pagos com a ingratidão".

Vamos primeiro lembrar que todos somos dotados de liberdade. Nascemos sem ter a obrigação de fazer favores a quem quer que seja. Na maioria das vezes, se o fazemos, é por vontade própria e de bom coração.

Mas há muitas pessoas que acham ser obrigação de toda a sociedade, inclusive nossa individualmente, servi-los e fazer o bem a eles de forma gratuita e benemérita. Muitos estão atolados num lamaçal imensurável e, tão logo recebem ajuda, esquecem-se de agradecer e o pior: alegando não ter pedido por ajuda, viram as costas. Há quem chegue ao extremo e inexplicável ato de odiar a quem o ajudou!

Há um ditado muito popular que diz que "um mãe cria dez filhos, mas dez filhos não cuidam de uma mãe". E qual a desculpa? A vida agitada, o mundo moderno em eternas mudanças, os compromissos pessoais que não existiam na vida das pessoas em tempos atrás? Ingratidão é a palavra. O filho que diz aos pais que não pediu para nascer, esquecendo-se de que não só desejou tanto nascer que participou de uma corrida pela vida disputando com bilhões de outros gametas a oportunidade única de desenvolver-se e tornar-se no ser ingrato que repudia e esquece os cuidados que recebeu até os dias atuais.

O ingrato não tem, em hipótese alguma, uma visão holística da situação. Ele se prende a detalhes. Olha e vitimiza-se pelo único prato vazio que se encontra rodeado de tantos outros pratos cheios. Não releva um "não" depois de ter recebido centenas de "sins". O ingrato é exatamente como escreveu o árabe Muslah-Al-Din Saadi: "O coração ingrato assemelha-se ao deserto que sorve com avidez a água do céu e não produz coisa alguma"

E ainda há uma classe muito pior de ingrato, justamente aquele que recebe o bem e prejudica quem o ajudou. A esse tipo de pessoa ingrata, meu mais profundo desprezo e repúdio. Simplesmente é perigoso viver perto de uma pessoa assim, tão delicada, meiga, bonitinha... e vil. Somente a distância serve de prevenção a este tipo de serpe.

E também ser bom. Façamos o bem sem esperar nada em troca. E mais: esperando o mal em troca. "Se seu coração é grande, nenhuma ingratidão o flecha, nenhuma indiferença o cansa", escreveu Leon Tolstói.

No meu planeta, tem uma placa bem grande em que está escrito: "obrigado".



sábado, 21 de novembro de 2020

Não se aproveite da situação

 Antes de pensar que estou querendo escrever um texto desmotivacional, deixe-me explicar o tipo de situação a qual me refiro.

Quando decidi escrever este artigo, lembrei-me dos tubarões. Os terríveis predadores dos oceanos possuem uma peculiaridade: quando um deles está ferido, é atacado pelos outros. Mesmo o mais forte, se estiver sangrando e vulnerável, passa a ser considerado presa e pode ser morto por seus iguais.

Pensando nisso, notei que todos passamos por situações inesperadas que, de um momento para outro, colocam-nos em situação de vulnerabilidade, e ficamos alheios a ações de qualquer outra pessoa, mesmo as prejudiciais.

Neste contexto, ao pensar que Confúcio escreveu que "ver o bem e não fazê-lo é covardia", ponho-me a pensar qual o tamanho da covardia em ver a oportunidade de  fazer o mal e colocar isso em prática. Difarmar uma pessoa que está passando por momentos difíceis, maltratá-la, alegrar-se com acontecimentos ruins na vida de outro, achar que tais acontecimentos foram bem feitos e merecidos ou mesmo agir para piorar a situação... tudo isso é o supra sumo da convardia, são comportamentos que embaçam sobremaneira os traços de humanidade que porventura a pessoa poderia ter.

Se alguém passa por maus momentos, ajude. Lembre-se que não criticar e não fazer nada para piorar também é de grande ajuda.

Quando um acontecimento envolve duas pessoas, nossa  tendência é tomar partido geralmente do mais fraco e açoitar moralmente a outra parte. No mínimo, perguntamos: mas o que foi que ele fez?

Isso cansa a gente, isso faz a gente diminuir a fé na humanidade. Não na humanidade como um todo, mas mostra que existem pessoas que não mereceriam ter permissão para conviver em sociedade, dado o mal que sentem prazer de praticar.

Use de empatia sempre, coloque-se no lugar do outro, no lugar de cada um dos envolvidos. Tente sentir com o coração daquela pessoa. E, se não for para ajudar, abstenha-se. Se sentir desejo de contribuir no prejuízo de alguém, proteja a todos de você.

Não prejulgue, não se envolva, não prejudique. O mundo é redondo justamente porque o zero e o cem ficam no mesmo lugar. E um dia, quem caiu se levanta e quem pisou se prostra.

E fica a dica de Gandhi: "Um covarde é incapaz de demonstrar amor. Isso é privilégio dos corajosos."

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

O que me ensinou o Rato Borrachudo.

No título, faço referência a um canal do Youtube que leva o nome da personagem Rato Borrachudo.

A proposta do canal, com mais de 12 anos de existência, era apresentar um conteúdo bem humorado sobre tecnologia e games. Público principal adolescentes e jovens (e eu!).

O Rato era interpretado por um jovem chamado Douglas sobre quem pairava uma aura de mistério, pois nunca revelava o rosto, sempre escondido sob uma máscara de rato feita de borracha. Eis o breve resumo de Rato Borrachudo.

Mas o que de bom, além de incontáveis horas de diversão e entretenimento, eu obtive do canal?

A história em que recentemente ele se viu envolvido.

O Youtube tem uma rígida (e questionável) política de direitos autorais e, certo dia, o Rato Borrachudo recebeu uma notificação de que seu canal com mais de uma década de existência e milhões de seguidores, seria apagado do Youtube por ter ferido direitos autorais. O mais absurdo: ele apenas tinha usado dez segundos de imagens feitas por um drone. O youtuber detentor dos direitos da imagem exigia um valor absurdo, na casa das dezenas de milhares de Reais para retirar a reclamação de Direitos Autorais. Caso contrário, o canal Rato Borrachudo seria definitivamente retirado do ar.

Aprendi muito com isso. Na sua vida, você pode tomar todos os cuidados, pode ter uma história irrepreensível, pode seguir todas as regras, pode se dedicar e abrir mão de muitas coisas em prol de uma escolha. Mas certo dia, de repente, inesperadamente, surge alguém e se atenta em um detalhe, uma deslizada, um erro mínimo. E por ganância ou por prazer quer destruir sua vida, sem levar em conta todo o trabalho, esforço, dedicação e empenho que você dispendeu até o momento. Sem dó. Isso é o pior de tudo. Repito: sem dó.

Sabe o que aconteceu? O Rato se reinventou. Mostrou seu rosto em uma live com milhões de pessoas assistindo ao vivo e agora tem um novo canal do Youtube chamado "Eu sou o Douglas". Ah, ele conseguiu um acordo com o oportunista que o assediou e também recuperou o Canal Rato Borrachudo. Agora a personagem interage com o criador nos vídeos.

Alguém sem piedade quer fazer-lhe mal?
Não se entregue. Resista. Reinvente-se, mostre que você se levantará tantas vezes quantas o quiserem derrubar. Como eu, e como o Douglas, seja um Rato Borrachudo e permita-se viver cada dia de cabeça erguida.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Comigo nunca acontece.

É perfeitamente normal termos a sensação de que estamos blindados e isentos de sermos acometidos por coisas ruins. A doença pousa sempre na família dos outros, a morte ataca impiedosamente somente o vizinho. E assim é com o desemprego, as brigas, os problemas conjugais e tudo o mais.

Contudo, como não se lembrar de Vinícius que escreveu: "que não seja imortal, posto que é chama/ mas que seja infinito enquanto dure" e assim conseguir traduzir tão fielmente a efemeridade da vida e das coisas!

Veja bem: seu trabalho, seu namoro, seu casamento, sua religião, seu status, seu conhecimento... tudo um dia vai passar. Até mesmo a pessoa que você é pode, de um momento para outro, se perder na senilidade ou nos efeitos do Alzheimer, que o mergulha em uma essência que não é sua, que pode nos transformar na pessoa que nunca fomos.

Meu Deus! Que abertura triste!

Mas eu apenas tenho a intenção de fazer um alerta. Na literatura, na cinemateca, na arte em geral usualmente são dados alertas para se viver o presente (o "Carpe Diem" tão dignamente imortalizado em "Sociedade dos Poetas Mortes") e, apesar de ser salutar precaver-se e investir no futuro, nunca deveríamos fazer disso o foco principal.

Lembro-me de um dia há tempos, num período em que eu fazia dieta, e um amigo me alertou para nunca deixar de comer aquilo que eu tinho vontade. "Por que um dia você vai querer comer", disse ele, "e você pode não ter condições ou saúde para isso".

Continuei minha dieta, claro, mas depois disso nunca me privei de fazer algo que eu tivesse vontade, com a desculpa de que deixaria para fazer somente no futuro - um futuro que nem sequer temos garantias de que chegará.

Invista em si, aposte em si mesmo, cuide de si mesmo. Li na internet uma frase, cujo autor desconheço, que dizia "não relegue a outro a responsabilidade de fazer você feliz".

E eu concordo! A responsabilidade por minha felicidade é minha! As outras pessoas vêm e vão de nossa vida. Amigos, parentes, cônjuges. No fim das contas, quando o baile termina (e sempre termina), só resta comigo a minha própria pessoa.

Nossa existência não é como um jogo de videogame, que nosso personagem pode conseguir 99 coraçõezinhos vermelhos de vida e, sempre que erra, renasce. A gente tem UM coração e não há como renascer. Portanto, não cometa o pior dos erros: errar consigo mesmo.

E não pense que você está blindado. Tudo acontece com todos. Só não se esqueça de que não é pecado ser feliz.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Fazer parte da vida não é ser a vida de alguém

Hoje enquanto comia uma ameixa estava pensando em um assunto que tem-me ocupado muito a mente e, confesso, até tirado o sossego devido sua insistência em ficar na cabeça.
Meu amigo Ricardo Brigagão já falou mil vezes para eu evitar a ideia fixa, mas devo fazer um "mea culpa" e aceitar que custou-me a entender e aceitar o que ele me aconselhou.
E ele estava certo e é disso que quero escrever hoje.
Quero contar a história de uma rapaz que teve o prazer de, inesperadamente, passar um tempo com uma pessoa que ele considera especial.
Foi, sem dúvida, um momento muito bom, uma conversa que lhe alegrou completamente o dia. Dessa vez, no entanto, como é costume desse rapaz, ele não estragou tudo mandando uma enxurrada de mensagens. Foi só um agradecimento pela companhia, mais tarde apenas um boa noite e, apesar da vontade gritante, não escreveu mais nada, por um dia inteiro, até o momento em que se veriam novamente. E foi bom!
Aí tem uma frase atribuída a Bob Marley (e nem sei se ele foi mesmo o autor dela) que diz assim: "Não viva para que sua presença seja notada, mas para que sua falta seja sentida".
Vou agora ao ponto. Existem duas maneiras de ser em um relacionamento. 
Primeiro, alguém pode ser parte da vida da pessoa. E ser parte significa que a pessoa continua vivendo. Tem amigos, tem problemas, tem momentos de introspecção, tem tristezas, tem diversões. E dentro da vida dessa pessoa, está aquele alguém, que torna-se o momento de alegria, o refrigério, o porto seguro, o motivo de um sorriso.
Este tipo de relacionamento é mais longevo, porque não sufoca, não incomoda, não enjoa. Ele é especial e está lá disponível como um presente valioso, como um sonho bom que faz a gente não ver  a hora da noite chegar para podermos sonhá-lo.
Já o segundo tipo é querer ser a vida de alguém. Note: não é fazer parte, é SER a vida de alguém. Isto implica em respirar, pensar, agir, decidir sempre e impreterivelmente para agradar a uma pessoa. Isso é escravidão, é tóxico, é mau. Enjoa, envenena, talvez mate...
Foi comendo um pêssego nesta tarde que entendi o que o Brigagão queria dizer. Que o ideal é ser parte da vida de alguém e ter esse alguém como parte  de sua vida.
Mas NUNCA ser a vida de alguém, ou ter um alguém como sendo sua própria vida. Porque essa exigência não faz bem e tem dias contados e dores certas.
Por isso é que somente Fernando Pessoa conseguiria descrever a minha vontade de ser como o vento na vida da pessoa que para mim é especial: "Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido".

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Aprenda definitivamente a fazer Poesia

Vai por mim. Se não sentir vontade de fazer Poesia, você é abençoado. Pare de ler isto e seja muito feliz (de verdade! Sempre disse que a ignorância é uma bênção).
Mas há alguns seres humanos que sentem. Sentem em profusão, com multiplicador embutido, em doses cavalares qualquer sentimento que seja. Para estes, o texto que se segue.
Para fazer Poesia, primeiramente sinta.
Sinta o que quiser. Ódio, carinho, desejo, inveja, orgulho, cansaço, tristeza, medo, apreensão, ansiedade, exultação, felicidade, desespero, ciúme, gratidão... qualquer uma das mais de 400 emoções, sensações ou estados já catalogados.
Ah, tem o amor também... 
Ao sentir, intensifique esta sensação. A ponto de perder o ar. De perder o sono. De perder a fome. De não encontrar mais o sentido da vida de tão intenso passou a ser esse sentimento.
Deixe agir por um tempo. Fermentar. Chegar a ponto de explodir (é preciso cuidado neste passo).
Quando não for mais suportável, impossível de manter sob controle, escolha seu método de Poesia: papel, tela, instrumento musical, madeira, rocha, sucata, sei lá... tudo aquilo que se permite imprimir personalidade.
Mire e... faça a Poesia!
Se não for intenso, não será Poesia. Se não vier de dentro, não é Poesia. Se não causar alívio, com toda a certeza não é Poesia.
E dane-se a opinião alheia. Poesia é libertação. Poesia não é entretenimento de plateia. Ela retrata a alma de quem a criou. Não deve ser entendida, porque não se entendem plenamente as almas. Ela serve para ser apreciada, como a oportunidade de enxergar o que está oculto e praticamente inescrutável na mente e no coração de uma pessoa.
Disse Quintana que "A poesia não se entrega a quem a define.". Verdade. Poesia é arisca, não dá para traçá-la em linha reta, desossá-la, autopsiá-la.
Criada a Poesia, estime-a. É seu eu secreto personificado. Admire-se. Veja-se. Contemple-se.
E assim se faz Poesia. Simples e perigoso.
Mas um aviso: se ao ver a Poesia de outrem você sentir o coração tremer... cuidado.
A maldição também está em você.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Preparado para assumir que amo.

Na manhã fria de um 10 de julho, mãos congelando, ouvindo Ed Sheeran e pensando muito em como as coisas deveriam ser diferentes, leio um texto de O Pequeno Príncipe que está repercutindo bastante nas redes sociais.
Nele, o protagonista conversa com sua rosa e diz que a ama. Em resposta, a amada diz que "também o adora", ao que ele prontamente retruca dizendo que não é a mesma coisa.
A explicação que se segue foi-me embasbacante. De um sentido e razão tão claros que envergonhei-me de nunca ter chegado a esta conclusão até então.
Adorar, diz o Príncipe, parte de nossa carência e, por isso, cria um apego a determinada pessoa, buscando nela nossas expectativas pessoais de afeto. Quando não somos correspondidos, sofremos. E o problema é que a outra pessoa, grande parte das vezes, tem anseios diferentes de nossas expectativas.
Aí vem a frase que me esbofeteou sem piedade: "Quando uma pessoa diz que já sofreu por amor, na verdade ela sofreu por adorar, não por amar."
Sim! Faz sentido!
Pois amar é não mudar, não exigir, é estar presente e cuidar altruistamente. Entender e cuidar. Não esperar nada do outro. "Só podemos amar o que conhecemos, porque amar envolve saltar para o vazio, confiar a vida e a alma. E a alma não se indeniza", disse o Pequeno Príncipe.
Então lembrei-me daquela noite em que me perguntou: "Você me conhece?" e eu respondi: "Estou tentando, com todas as minhas forças. Ajude-me a conhecer".
Porque estou querendo me preparar para assumir que amo. Como ensinam os budistas, quando se adora uma rosa, a gente a arranca para tê-la e levá-la conosco. Se amamos a rosa, nós a regamos e cultivamos.
Quero assumir que amo. Mas, para isso, só queria presentear-lhe com mais uma pérola do livro de Exupery que acredito ser importante dentro do pouco que conheço de sua vida: "É loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou".