sábado, 15 de abril de 2017

Por mais que se explique, não entendem

"Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior." - Vander Lee


Não se manda no coração. Manda-se sim!
Coração não se ordena, ele tem de ser convencido.
Sempre digo: odeio o uso de lugar-comum. Toda convenção pode ser desconvencionada, pode ser repensada em outros padrões em mais modernas decisões em base de maior sabedoria.
O coração é um músculo burro, ele não pode ficar xucro, libertino, sem dono. Senão ele faz besteira.
Poetas mexem com corações. Convencem-nos em pessoas que as deixam convencer.
Existe o "não te amo" mas não se pode dizer "nunca vou te amar".
Conheço uma pessoa que tinha asco de seu atual marido. Tinha medo, receio, nojo da pessoa que viria a ser seu amor por mais de 20 anos (e que continua sendo).
Como ele fez para mudar esta ideia? Fez Poesia.
Não, ele não escreveu poemas, ele fez Poesia da maneira que ele sabia ser poeta.
Ele mandou flores, ele ligava, ele se importava, ele cuidava, ele era presente, ele tinha boas intenções.
Ele era a melhor pessoa para ela. Tratava-a melhor do que as pessoas que deveriam cuidar dela.
E ela um dia enxergou. Deu a chance, deu certo.
É dolorido ver a pessoa sofrendo, batendo a cabeça por ser como ela é, e não como deveria.
Uma pessoa que se aventura mas não quis aventurar-se no rumo certo. Bate cabeça, machuca-se, sofre.
O poeta, impassível, tenta explicar, mas é o que mais sofre as consequências.
Então que o tempo entra.
Certa mocinha namorou um rapaz quando tinha 17 anos. Seu primeiro namorado. Quis as intempéries dos tempos que ela conhecesse um rapaz garboso de São Paulo que se casou com ela. Nunca mais então ela viu ou pensou no primeiro namorado.
Décadas se passaram, mais de quarenta anos. E ela enviuvou. Foram oito anos curtindo a depressão pela viuvez. Até que se lembrou do ex-namorado.
Procurou na lista telefônica, encontrou o distinto. Encontraram-se, namoraram-se. Ambos com mais de 70 anos.
Quando ela morreu, ele morreu uma semana depois.
O jeito é deixar para o tempo fazer acontecer as coisas mais imprevistas da vida. As coisas acontecem, basta querer, eu acredito nisso.
Mas enquanto não acontece, e a outra parte insiste em não entender que a melhor opção é o poeta, canto Vander Lee... e vou me esconder no interior do meu interior.


quarta-feira, 12 de abril de 2017

Queria você como eu queria


Estou estudando italiano. Uma maneira de ocupar-me o tempo ocioso de maneira mais prática.

Ouvindo uma música chamada Il Monde Degli Altri (música no final da postagem), na voz de Renato Russo, fiquei intrigado com alguns trechos. Por exemplo

"C'è un telefono a due passi e ho bisogno di sentirti
La tua voce può bastarmi per convincermi che esisti"
que significa:
(Há um telefone a dois passos e eu preciso te ouvir
Sua voz pode ser o bastante para me convencer que você existe)

Isso revela um pouco de um sentimento que estava perscrutando em mim. As pessoas que se apaixonam fácil demais apaixonam-se não por um ser real, mas pelo ser idealizado que eles criam como uma áurea em torno da pessoa.
Este ser idealizado seria, em tese, a pessoa com quem se poderia viver para o resto da vida, que teria todos os predicados necessários para fazer-nos felizes em todos os momentos e nas mais diversas situações.
Mas são seres irreais, fictícios, ideais, que vivem somente na utopia poética. São uma capa com que revestimos uma pessoa eleita para vestir esse manto irreal. E a pessoa, pobre pessoa, não teria condições de alcançar o ser supremo que fora idealizado. 
Mas o poeta tenta enxergar assim, tendo relevar as falhas, tenta desculpar todos os escorregões. Tenta ver o belo no ogro, o perfeito no decadente.
Um detalhe, como diz a canção acima transcrita, seria o bastante para convencer que a pessoa existe. Mas não existe, isto é fato.

"Il mondo degli altri che non son con me
Ma non me ne importa se sono con te"

(O mundo dos outros que não estão comigo
Mas não me importa se estou com você)

E este isolamento do mundo, achando que somente a pessoa ideal é que vale toda a pena é o grande perigo. Porque abrimos mão de tudo por conta de algo que não existe. Abrimos mão até de nós mesmos por causa de alguém que é irreal, um fantasma, uma ilusão.
Queria muito que fosse como eu queria, como eu sonhava, como imaginava. Queria que a Lua fosse como a lua, cândida, pura, minha. Mas não é, nunca é.
Muito cuidado. Por isso quero registrar o que Renato também cantou: "Mas é claro que o sol vai voltar amanhã mais uma vez".


segunda-feira, 10 de abril de 2017

O beijo da morte

No "Canto para Minha Morte", de Raul Seixas, ele diz assim:

"a morte, surda, caminha 
ao meu lado 
e eu não sei em que esquina 
ela vai me beijar..."

E enquanto brincamos de viver, lutamos para viver, falamos tanto em viver, chamamos quem amamos de vida, exclamamos "puxa vida", reclamamos da vida... a morte segue serena ao nosso lado, apaixonada por nós, não se esquecendo de nós um momento sequer, esperando o horário exato de dar o primeiro e derradeiro beijo.
Uns, querem viver eternamente. Outros, pensam em morrer mas lhes falta coragem. Há os que são surpreendidos por ela.
Os que desejam morrer, desejam sem razão suficiente. Amores mal resolvidos, problemas de difícil solução, dívidas não pagáveis, ou mesmo por não encontrar razão em continuar vivos.
Não os condeno. As religiões fazem isso muito bem (na tentativa de evitar os suicídios, mas falham).
Quantas pessoas desejam viver e uma doença inesperada lhes coloca prazo determinado e curto na existência.
Freud comentou que, para suportar a vida, deve-se estar pronto para aceitar a morte.
De qualquer forma, o texto de hoje é para alertar.
Que hoje somos, amanhã, éramos. Como no tempo de um verbo, uma conjugação que foi, simples e singela, rápida assim.
Daí vem o pensamento de Da Vinci, "que o teu trabalho seja perfeito para que, mesmo depois da tua morte, ele permaneça."
O que somos agora é o que importa. O amanhã é uma previsão que pode não dar certo. É aquele tempo chuvoso que pode ser sol, ou vice-versa.
Não deixemos para amanhã as ações, as declarações, as atitudes, as decisões, os pedidos, as resoluções, os beijos, os abraços, os sorrisos, os "fazer sorrir".
A transformação é sempre agora. Porque o amanhã é ilusório, é uma desculpa, é uma incógnita. É uma incerteza.
A certeza transformadora é somente agora, e urgente. Porque sabe-se lá em que esquina a indesejada das gentes vai querer me beijar.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Pronto para a troca

Deparei-me com uma postagem no Facebook que me deixou intrigado e, sinceramente, fiquei um bom tempo sem saber como responder ou o que pensar.
A postagem era uma pergunta: "Trocaria uma pessoa que você ama, por uma que ama você?"
Essa pergunta nos coloca duas situações de mão única. Primeiro, apenas nós amamos. Na segunda, apenas somos amados.
As pessoas que consultei foram rápidas em responder que fariam a troca sem pestanejar.
Mas eu não consegui ter essa presteza em decidir-me. Ponderei muito e demoradamente sobre a situação.
Como poeta de uma escola literária romântica, minha formação pede que supervalorize o feminino, o amor, entre outras características.
Já mencionei em outras postagens que sou do grupo que gosta de cuidar a ser cuidado, a que denominei de síndrome de anjo da guarda. Posteriormente, descobri que se trata do Complexo de Wendy, que é justamente a extrema necessidade de satisfazer as necessidades dos outros.
Deste prisma, não pareceria impossível optar pela primeira opção, de ficar com quem amamos, mesmo que este não nos ame (e já tenha deixado claro que não virá a amar).
Sei que amor pode vir a ser em um coração que não ama. Mas é um salto muito arriscado no escuro.
Ainda pensei que seria muito egoísmo de minha parte se eu deixasse de querer cuidar e optar por ser cuidado.
Mas quer saber? No final de minhas ponderações sempre insisti em colocar a argumentação de que eu queria ser feliz.
E quanto de felicidade eu teria em amar alguém que não me ama, que me trata de acordo com seus interesses (isto é, bem quando convém). Uma pessoa que não demonstra se importar com seu bem estar, que fala coisas que o magoam, e que pratica atos para mantê-lo distante?
Prudentemente, temos de enxergar que a pessoa a quem só amamos tem seus próprios planos e muitas vezes não consegue mais ter sentimentos. Amar, somente a si mesma e procura apenas encontrar alento e conforto para si própria.
Foi então que decidi-me: será uma troca válida deixar quem eu amo (e não estou dizendo deixar de amar, que isto não é tarefa fácil) por aquela que me ama.
Acho que estou preparado, porque tentei.
Como na frase do filósofo Nietzsche: "Você tem que estar preparado para se queimar em sua própria chama: como se renovar sem primeiro se tornar cinza?"

sábado, 1 de abril de 2017

Quando a gente deixa (ou o fim de uma eternidade)

Concordo com o leitor que achou o título desse texto paradoxal. Como poderia uma eternidade chegar ao fim? Pois é, há pequenos infinitos dentro de nossa existência que continuarão sempre vivos e existentes, mas que acabarão sendo deixados de lado. Talvez não seja por nosso querer, mas por força do soprar dos ventos, pelo vai e vem das ondas, e pelas tempestades que surgem.
De qualquer forma, não me sai da cabeça o Soneto de Fidelidade de Vinícius.

"Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure"

Às vezes, bastam detalhes, "quês" mal definidos, palavras mal colocadas, atitudes impensadas ou incompreendidas e de repente muda-se o que parecia ser imutável.
Casamentos chegam ao fim, fé é questionada, time sai do coração, vocação "desvocaciona-se". 
É como a conversa no País das Maravilhas entre Coelho e Alice:

"Alice: Quanto tempo dura o eterno?
Coelho: Às vezes apenas um segundo."

Desistir também é opção.
Quando se trata de relação interpessoal, não se pode exigir reciprocidade proporcional, isto é, ninguém pode amar e exigir ser amado, por exemplo.
Ninguém pode doar-se e esperar doação em troca.
Mas é preciso ponderar se ao menos o respeito à essência humana existe.
Somos produtos com data de validade. Alguns ainda têm um prazo reduzido por conta de algum imprevisto. E tempo é sem dúvida um bem precioso. Os mais ricos nesse quesito, como a francesa Jeanne Calment, teve 122 anos e 167 dias para esbanjar. Nossa expectativa no Brasil é 73,6 anos e há escritores que não sabem se conseguem virar o ano.
Por isso, como se sujeitar a uma pessoa que o despreza em dados momentos? Que não reconhece o bem que lhe quer? Que um dia é amores e outros lhe toca terrores?
Como se sujeitar a situações sentimentais, laborais, relacionais que lhe deem dores no peito, angústias, ansiedades? O cronômetro está rodando de trás para frente.
Em conclusão, ponderemos: mesmo que ainda nos importe muito algo ou alguém... se não nos valoriza, deixe.

terça-feira, 28 de março de 2017

Uma Poesia diferente

Está totalmente erguida minha bandeira de combate ao pensamento de senso comum, e aos lugares comuns de toda e qualquer espécie.
Pensar como a maioria não é o ideal. Empatema (quando duas pessoas pensam igual e chegam a dizer a mesma frase) pode ser bonito, para muitos é sinal de afinidade e do encontro de almas gêmeas, mas esse tipo de romantismo é dispensável.
Nada mais lindo do que se completar nas diferenças. Assim é possível chegar mais perto do "todo".
Seria horrível e impossível haver só lados direitos, somente subidas, apenas o claro. A compensação é necessária, os pensamentos diversos são importantíssimos.
Quando Bandeira escreveu que estava cansado do lirismo que não era libertação, eu o cubro de razão.
Poesia não é escudeiro de apaixonado, que pretende escrever tão somente para conquistar (embora sabendo-se fazer, é ação infalível!).
Poesia não é sinal de status para colocar ao alto egos inflamados e fazer aflorar egoísmos toscos.
Está chegando a hora deste poeta escrever uma Poesia diferente.
Porque estupidez também é sentimento.
Porque o sentimento também é poluto, feio, arrogante, quando nossos sentidos assim pedem.
Como é lindo ver um poeta sofrer porque ama alguém. É lindo ver um poeta ansioso por encontrar-se com sua amada enquanto esta o despreza. É lindo e exuberante um poeta fazer tudo e receber apenas migalhas em troca (e tratar essas migalhas como se fossem diamantes).
É tudo lindo, só não é lindo estar na pele do poeta que sofre decepção, sofre abandono, sofre ansiedade, sofre sem mesmo saber que está sofrendo, enganando-se com a ilusão de um amor mendaz.
Basta! Se o lirismo não for libertação, se não trouxer o prazer de abrir o peito para os reais sentimentos, se não for o quebrantamento dos grilhões em formato de coração que machucam a alma de quem sente, eu deixo já de ser poeta, renego essa maldição com que nasci!
Está chegando a hora de uma Poesia diferente. Crítica, serena, contumaz, decidida. Machuque se for para machucar, mas que machuque o outro e não quem fez a Poesia surgir.
Está chegando a hora de uma Poesia que vire a mesa. Nada de olhar para Whatsapp 185 vezes no dia esperando um "online". Nada de entrar no Facebook e esperar por uma postagem que, quando aparece, não é para ti. Nada de mendigar umas poucas horas de companhia como se fosse um favor apaziguar sua sanha.
Evoco Ovídio, que disse: "A melhor ajuda para a mente é romper com os grilhões que iludem o coração".
Aguardem, pois está na hora da minha Poesia se tornar libertação.



sábado, 25 de março de 2017

Tá triste?

Hoje não ia escrever. Estava desanimado demais para isso. Foi então que li a frase de Chaplin: "Eu gosto de andar na chuva, porque ninguém pode ver minhas lágrimas."
Não tem como não escrever depois de ler um diamante tão aquilatado quanto este.
A gente acha que a vida é eternamente sorriso, que o segredo do sucesso é ser feliz todo o tempo, que a felicidade é o supra sumo das nossas conquistas.
E, de repente, vem a tristeza.
Neste momento, estou triste. De uma tristeza sem tamanho e que dói ainda mais porque eu queria gritar aos quatro cantos os motivos dela e não posso. E por saber que, mesmo se gritasse, isso não mudaria a situação.
Sou poeta, escritor, apresentador de rádio e TV, palestrante, comunicador. Mas fico extenuado porque não quero me permitir ficar triste e, por ficar, acabo ficando frustrado.
Lutamos por nossa liberdade e hoje, vergonhosamente, reconheço que nem eu próprio dou-me o direito de ser livre. Se quero ficar triste, que eu fique, poxa!
E neste mundo encardido, enlameado de "lugar comum", ficamos desejando seguir a moda, o senso comum, o pensamento da massa. E deixamos de ser nós mesmos.
E a tristeza, que para mim já tem peso dez vezes maior, fica ainda mais pesada por eu me cobrar sorrisos.
Tá triste? Fique triste, permita-se.
Não há nada de errado em deixar fluir todos os sentimentos que existem e que fomos feitos para sentir.
Não podemos sentir desejo porque é errado, não podemos ficar tristes porque é ruim, não podemos sentir ansiedade porque é doença, não podemos amar porque é restrito a uma pessoa.
Pare, mundo. Tem um monte de gente querendo descer!
Se você quiser se ganhar, deixe-se livre para sentir. E então vai se tornar senhor de seus sentimentos.
E poderá enfim olhar a lua sem tristeza.