segunda-feira, 10 de abril de 2017

O beijo da morte

No "Canto para Minha Morte", de Raul Seixas, ele diz assim:

"a morte, surda, caminha 
ao meu lado 
e eu não sei em que esquina 
ela vai me beijar..."

E enquanto brincamos de viver, lutamos para viver, falamos tanto em viver, chamamos quem amamos de vida, exclamamos "puxa vida", reclamamos da vida... a morte segue serena ao nosso lado, apaixonada por nós, não se esquecendo de nós um momento sequer, esperando o horário exato de dar o primeiro e derradeiro beijo.
Uns, querem viver eternamente. Outros, pensam em morrer mas lhes falta coragem. Há os que são surpreendidos por ela.
Os que desejam morrer, desejam sem razão suficiente. Amores mal resolvidos, problemas de difícil solução, dívidas não pagáveis, ou mesmo por não encontrar razão em continuar vivos.
Não os condeno. As religiões fazem isso muito bem (na tentativa de evitar os suicídios, mas falham).
Quantas pessoas desejam viver e uma doença inesperada lhes coloca prazo determinado e curto na existência.
Freud comentou que, para suportar a vida, deve-se estar pronto para aceitar a morte.
De qualquer forma, o texto de hoje é para alertar.
Que hoje somos, amanhã, éramos. Como no tempo de um verbo, uma conjugação que foi, simples e singela, rápida assim.
Daí vem o pensamento de Da Vinci, "que o teu trabalho seja perfeito para que, mesmo depois da tua morte, ele permaneça."
O que somos agora é o que importa. O amanhã é uma previsão que pode não dar certo. É aquele tempo chuvoso que pode ser sol, ou vice-versa.
Não deixemos para amanhã as ações, as declarações, as atitudes, as decisões, os pedidos, as resoluções, os beijos, os abraços, os sorrisos, os "fazer sorrir".
A transformação é sempre agora. Porque o amanhã é ilusório, é uma desculpa, é uma incógnita. É uma incerteza.
A certeza transformadora é somente agora, e urgente. Porque sabe-se lá em que esquina a indesejada das gentes vai querer me beijar.