quinta-feira, 23 de março de 2017

Carta a você, que se corta

Você, que se corta, saiba: eu sei o que você sente.
E sentir-se prestes a explodir por carregar o mundo inteiro aceso em seu peito não é a melhor sensação que existe. Livrar-se disso é quase impossível, mas não se pode ficar parado sentindo o peito inchar, e inchar, e inchar, e inchar, e inchar...
Até quando isso vai? Um peito não suporta essa pressão.
Na escola, em casa, em qualquer lugar, nada parece estar normal, nada parece estar acontecendo da maneira que eu gostaria que estivesse. E pode parecer egoísmo, mas não custava as coisas serem um pouquinho diferentes.
Por que todos me odeiam? Por que nada dá certo? Por que tudo está horrivelmente parecendo um mundo cor de rosa se não enxergo cores e tudo parece estar irritantemente ideal? Por que eu não estou me sentindo ideal o suficiente para viver nesse mundo?
Ser tratado como adolescente, imaturo, ter os sentimentos não levados em conta. Tudo isso enche. tudo isso quer explodir.
Tantas pressões, pensamentos no futuro. Que vou ser, quem vou ser, o que vou estudar, com quem vou me casar, será que vou amar, será que um dia alguém vai me amar?
E de repente não dá mais para a gente aguentar. E então aquele canivete, aquela gilete, aquele estilete...
Ahhhhh, que alívio! Como pode ser tão prazeroso um pequeno corte. Enquanto o sangue desce acariciando a pele, através do corte os problemas do mundo esvaem-se, resolvem-se. E tudo fica bem por um momento.
Como é bom sentir-se vivo e sem o aperto insuportável que havia no peito. Renato cantou: "seus tornozelos sangram e a dor é menor do que parece. Quando ela se corta ela se esquece que é impossível ter na vida calma e força".
Ninguém entende o que é tentar ser forte a todo e cada amanhecer.
Mas, acredite: pode ser diferente.