quarta-feira, 15 de março de 2017

Se for para despedir, que seja depois de valer a pena

Oswald de Andrade escreveu que "o Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus."
Obviamente, a intenção de Andrade era apontar para o êxodo de pessoas que buscam oportunidades em outros países ou continentes, destacadamente a Europa na época e atualmente nos Estados Unidos.
Mas sempre, desde que li esta frase em um encarte de CD da Legião Urbana, chamou-me a atenção o trecho que fala de gente dizendo adeus.
Minha interpretação, entretanto, é um pouco menos nacionalista: eu enxergo as pessoas que dizem adeus, independente se estão procurando oportunidades em outros lugares ou apenas estão se despedindo para nunca mais serem vistas ou encontradas. Pessoas que dizem adeus mesmo estando próximas umas das outras.
Adeus é uma palavra muito forte. Cessar uma convivência é muito dolorido para certas pessoas e neste rol eu me incluo. "Não olhe pra trás, odeio despedidas. Diga até mais, mesmo se for adeus", cantou Humberto Gessinger na música "Até mais".
O último beijo, o último olhar, o último carinho, o último aperto de mãos... a palavra "último" também é deveras forte. Não gosto de usá-la. A palavra "ultimo" tem um vislumbre de morte dentro do universo gramatical. Ela põe fim em tudo!
Mas enquanto escrevia para o blog, na minha loucura de fazer quatro coisas ao mesmo tempo (escrevia uma matéria para o jornal, escrevia para o blog, conversava com uma amiga e ouvia Arnaldo Jabor no Youtube), eu escutei este trecho de Arnaldo Jabor: "Existe gente que precisa da ausência para querer a presença."
Poxa, meus olhos acabaram de se abrir! Então despedir pode ser necessário. O "adeus" pode ser apenas motivo para um futuro "olá". E a palavra "último" serve apenas de referência, e pode ser atropelada pela composição "de novo".
Se for para despedir, ora! o mundo não é plano e sem retornos. O mundo é redondo, e cheio de reencontros. Se for para despedir, que antes tenha valido a pena, para ter o sabor de querer mais. Porque a eternidade é relativa e não é absoluta, ela pode ser encontrada em um momento que foi muito bem vivido ou podemos passar uma vida inteira sem nunca atingi-la.
Por isso, nossa preocupação deve ser única: fazer valer a pena nossos instantes. Porque assim o adeus pode não ser eterno.