sexta-feira, 17 de março de 2017

Nossa mania de querer ser dono

Dizem que a depressão é "o mal do século". Renato Russo em uma de suas canções disse que "o mal do século é a solidão". Eu, de minha parte, estou propenso a acreditar que o grande mal é o desejo de possuir, de ser dono, de ter o controle total e absoluto sobre coisas e pessoas.
A busca desenfreada de ter mais e mais dinheiro é explicada pelo desejo de ter PODER aquisitivo.
Quem corre atrás de status, de engrandecer o nome, de tornar-se famoso é para conseguir PODER social.
E ainda nos relacionamos com pessoas e queremos ter poder sobre elas: impedi-las de sair, de ter vida social, de postar fotos. Queremos saber a par e passo a vida do outro, manipular os caminhos, exigir explicações.
Nunca se falou tanto em liberdade como hoje em dia. E a escravidão parece continuar não só explicita, mas também subliminarmente.
Travo uma luta diária com minha ansiedade. Ela me lacera o peito, eu a mantenho cerrada nele e não dou vazão. Um dos dois há de vencer.
Lembro-me de Oscar Wilde, dizendo que "Egoísmo não é viver à nossa maneira, mas desejar que os outros vivam como nós queremos."
Não é justo, não é certo, não é salutar para ninguém este tipo de exigência.
E em se tratando de liberdade, evoco Fernando Pessoa, que escreveu que "precisar de dominar os outros é precisar dos outros. O chefe é um dependente."
Ser possessivo é pedir para perder. Controlar é quase uma ordem para se afastar. Um ditado popular diz que o canário, ao fugir da gaiola, não fica sequer na vizinhança.
Não tente ser dono de quem nasceu para voar. Você vai sofrer. Vai ter depressão, vai ter solidão - todos os males do século estarão com você!
Deixe livre a quem ama... e cuide. A pessoa volta, com certeza volta.
Ao escrever esse texto lembrei-me de um amigo que cuida de beija-flores. Ele dá água doce para os bichinhos e coloca frutas para outros pássaros. Eu vi os beija-flores tomando água de dentro de sua boca e pousando em seu ombro. E todo o dia os beija-flores o chamam querendo sua atenção. Um exemplo de que ele possui aqueles que são livres, mesmo sem ser dono.