quarta-feira, 10 de maio de 2017

Não importa, mas ainda vale

Quando todas as expectativas caíram e tornaram-se frustradas, quando todas as forças já se mostraram exauridas, quando já se incutiu a certeza plena de que esforço algum resultará em qualquer mudança... a gente é obrigado involuntariamente a deixar-se de importar.
Mas somos seres muito desequilibrados. O mundo nos fez ser assim. Separou em nós a razão e a emoção e ambos atuam em maior ou menor porção conforme lhes convém. Digo isso porque mesmo sem se importar, o pensamento não apaga nem o ser, nem a ideia.
Esquecer seria ingratidão com a história vivida. Ainda mais se a história nos mostrou que temos valor, que podemos ser queridos, que ter auto desprezo é infundado, porque nos mostraram que podemos tocar o coração doutrem.
Assisti 14 vezes o filme "O Carteiro e o Poeta". A canção tema de abertura do filme é maravilhosa, mas somente agora que tive oportunidade de ouvir a versão cantada e ter acesso à letra. E essa música, "Mi Mancherai", motivou-me a escrever hoje.
Sinta a poesia de alguns trechos:


Perché l'amore in te si é spento
Perché, perché?
Non cambiera niente lo so
E dentro sento te
(Por que o amor em você se apagou?
Por quê, por quê?
Não mudará nada eu sei
E dentro sinto você)
...
Mi manchera l'immensita
Dei nostri giorni e notti insieme noi
I tuoi sorrisi quando si fa buio
La tua ingenuita da bambina, tu
(Me faltará a imensidão
Dos nossos dias e noites juntos
O teu sorriso quando fica escuro
A tua ingenuidade de uma criança)

Hoje estendi-me um pouco no texto, desculpem-me, mas essa descoberta foi-me de tal modo deslumbrante que já ouvi a canção quase uma centena de vezes e me emociono todas as vezes (inclusive agora que escrevo a vocês).

A gente pode então deixar de se importar com uma pessoa, de aparecer na vida dela, de se preocupar com ela, pode-se até mesmo sumir por completo e achar que a odeia.
Mas esquecer? Como se faz isso?
E concluí apenas que isso só nos acontece porque somos humanos.

E não fui eu... foi Drummond (sim, o mestre!) quem simpaticamente escreveu:
"Se um dia olhar para o céu e não te ver, é que sou a onda do mar e não consigo te esquecer, sou feliz do teu lado sem do seu lado estar, pois você é isolado no meu modo de pensar, quando estou triste e não tem solução, lembro que você existe e mora no meu coração!"

E acho, em conclusão, que a Lua deveria entender (e aceitar) que mesmo oculta entre sempiternas nuvens, não há como dela o marinheiro se esquecer, pois as ondas do mar para sempre denunciarão sua influência.