terça-feira, 11 de junho de 2019

Hoje estou romântico

Li ontem um texto (mas não me recordo onde!!) que dizia que as emoções humanas mudam a cada instante. Quem demonstra um sentimento ou navega em uma sensação, de ora para outra modifica seu comportamento. Tudo depende do que acontece no dia da pessoa, de pensamentos ou de influências que ocorrem em algum momento.
Isso talvez justifique o fato de que hoje notei-me extremamente romântico. E me dei conta disto justamente porque, ao olhar para cima no estacionamento de meu local de trabalho, notei que uma árvore estava toda florida. Estava tão linda, tão produzida, tão maravilhosa... e eu, andando sempre cabisbaixo, iria perder este presente, permanecendo imerso em uma vida medíocre.
Ainda bem que ergui a cabeça e olhei para aquela árvore!
Será que foi isso que o filósofo Bertolt Brecht quis dizer quando escreveu "Todos correm atrás da felicidade sem perceber que a felicidade está nos seus calcanhares."?
Sim, hoje estou feliz e sentindo-me apaixonado. Falando sozinho, como um bobo sonhador. Um menino, um adolescente para o qual a vida sorriu pela primeira vez!
E pensei muito antes de escrever este texto. Dependendo de quem o ler, a pergunta será inevitável: "Por que está assim, hein?" - uma pequena frase que vai, certamente, tentar desabar com tudo. E há pessoas a quem burramente eu concedo o condão de conseguir estragar tudo.
Mas hoje, dane-se tudo! Estou sentindo-me apaixonado. E ver aquela árvore florida me gritou fundo no peito. Despertou-me um sorriso. Porque senti como se eu tivesse feito aquela árvore florir. Que ela abriu suas flores fora de época por minha causa, porque no dia de hoje eu estou me sentindo feliz.
E se há um porquê, se existe uma razão para eu estar assim, eu imagino qual seja, e deve ter muito a ver com o que Maquiavel escreveu:
"Porque a todos é concedido ver, mas a poucos é dado perceber. Todos veem o que tu aparentas ser, poucos percebem aquilo que tu és."
E eu, dentre tantos, consegui perceber, não é?

terça-feira, 4 de junho de 2019

Não suba ao palco

"Se você está infeliz, recolha-se, não suba ao palco. Disfarçar a dor é dor ainda maior", disse Martha Medeiros.
Hoje jurei para mim mesmo que este texto não terá vitimismo de minha parte e assim o farei.
O que pretendo ressaltar é o ato heroico de muitas pessoas de se fazerem fortes mesmo estando arrebentadas emocionalmente. Conheço algumas.
Suas histórias são as mais diversas e seus problemas, inúmeros. Mas sempre têm um sorriso para distribuir, um conselho para dar, uma companhia boa para oferecer.
Desculpe perguntar mas, como não subir ao palco, Martha, se o show tem que continuar?
Sei e sinto que a vontade de esconder-se nos bastidores é tamanha e que realmente substituir a lágrima por um sorriso faz doer ainda mais. Seria até mesmo um ato de autopreservação evitar maquiar tristezas, relutar contra os sentimentos (imagine aqueles cuja condição emocional os fazem sentir diversas vezes mais intensamente?).
Mas o mundo precisa de cada um de nós, mesmo que imaginemos o contrário. Se não fosse assim, as pessoas não se interessariam tanto pela vida umas das outras. O ser humano é um ser social, e só consegue tirar suas conclusões mediante comparações. Por isso precisa tão encarecidamente de outrem. 
Salvo exceções encontradas em empreendedores e pioneiros, o ser humano progride tentando atingir o patamar alcançado por alguém a quem admira. Da mesma forma, consola-se ao notar que outros estão em condições piores do que as suas. "Tanta gente passando fome e você aí nem tocando no arroz", diz a mamãe para o filho enjoadinho.
O show deve continuar, é uma frase bem conhecida. E somos os agentes deste grande espetáculo chamado vida em um imenso palco chamado universo.
Por isso é difícil, por isso é doloroso... porque todos nos querem para parâmetro, para comparar-nos, para analisar-nos e, inevitavelmente, criticar-nos.
Por isso Renato Russo cantou: "Quero ter alguém com quem conversar. Alguém que depois não use o que eu disse contra mim..."

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Queimando a língua com meu chá

Já não é tanta novidade o fato de que substituí meus inúmeros cafés com açúcar por tomar chá (na verdade, tomo meia xícara de café no Pereira, como falei no texto anterior).
E quando entrei no mundo dos chás, descobri que há diversas opções, algumas até requintadas. E gostei demais de um chá que mistura hibisco, rosa, canela, laranja e maçã. Facilmente tornou-se meu sabor preferido.
Mas hoje inadvertidamente enquanto fazia um serviço, esqueci-me que havia acabado de colocar água fervendo em meu chá e queimei minha língua.
Geralmente eu deveria praguejar todas as gerações da água, do chá e minha por causa da dor que estava sentindo.
Mas foi uma reação surpreendente a minha: como era o chá que eu gostava, a dor não foi tão intensa, não praguejei, não me exaltei... e até resolvi escrever sobre isso!
Neste momento, a dor já não me incomoda e só sinto ainda o sabor delicioso do chá.
Lembrei-me do escritor francês, Anatole France, que registrou: "Sabendo sofrer, sofre-se menos".
Não que eu saiba sofrer, mas o sofrimento remediou-se porque me machuquei involuntariamente com algo que eu gosto muito.
E não são assim os relacionamentos? Não há quem entre em um relacionamento sem ter momentos de sofrimento. (A menos que tenha sido uma escolha que se mostrou errada, e então o sofrimento passa a ser eterno... mas falo disso em outro texto. Hoje estou me referindo de um modo geral e não a mim, rs).
Muitas das vezes, o sofrimento é causado não pela outra pessoa mas por nós mesmos e nossas ansiedades, nossos pensamentos e ponderações erradas.
A gente traça ideias errôneas, faz conjecturas um tanto quanto desconexas e cria um sentido torpe para alguma situação. Sofre porque quer, porque cria razões. 
Aconselho a você, amigo leitor, que analise-se. Conclua-se e entenda-se. Relativiza-se quando a barra estiver difícil e pesada para suportar. Amor é para causar bem-estar, acredite.
Mas, se não acreditar, fica o consolo das palavras de Victor Hugo aos românticos incorrigíveis: "Vós, que sofreis, porque amais, amai ainda mais. Morrer de amor é viver dele".

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Tomar um café no Pereira

Eu estou focado. Por isso, decidi que, durante o dia, não iria tomar café. O motivo da decisão é que em meu trabalho o café é coado e já adoçado. Eu estou cortando o açúcar e até consegui certo progresso em relação ao meu peso.
Gosto muito de café. Estou descontando minha gana na máquina de espresso que há na Academia Sport Life. Lá tomo quantos quiser, sem açúcar.
Entretanto, escrevi este preâmbulo apenas para comentar que estou rumando a tomar algumas decisões. Decisões que irão culminar em alguns sentimentos desagradáveis: ingratidão, deslealdade, solidão (como se esta já não houvesse!), abandono (pela segunda e derradeira vez). Nunca estive tão perto de decidir-me e a mudança vai ser radical.
Cada manhã, o peso desses pensamentos e ponderações acerca da tomada de decisão massacram-me vorazmente, como hienas sanguinárias que ensanguentam-me enquanto riem.
Então descobri um local para refúgio e paz. Eu vou tomar meia xícara de café na sala do Pereira. Ele, com seu jeito peculiar, sempre tem uma história, quer seja real ou mera lorota, mas que distrai. Um cavalo que precisa ser amansado, uma discussão que aconteceu com alguma pessoa do passado, um causo bem humorado e com desfecho inusitado. Quer saber? Pouco me importa a história que ele conta.
O gostoso é ir, é o caminho, é a ida. Gostosa é a sensação do pequeno caminho que atravesso para chegar até a sala do Pereira. E tomar meia xícara de café, mesmo que adoçado.
Nestes dias turbulentos, tem sido esse meu breve refúgio. É o que tenho à disposição no momento.
Li um trecho de um texto de Bárbara Quinta, que dizia:
"- Não sei onde estou. Nem sei pra onde vou. Posso me refugiar em teus braços?
- É claro. Se quiser, também pode ficar no meu coração".
Era o almejado. Contudo, este tipo de refúgio a que se refere o texto ainda não me foi completamente aberto. Ainda é uma incógnita e seu acesso, parcialmente restrito.
O que há de certo no momento, é o tomar café no Pereira.
Portanto, se alguém precisar de mim e não me encontrar, pode ser que eu esteja lá no Pereira tomando meia xícara de café. Talvez eu esteja refletindo nas palavras de Webert Gomes:
"Não se ocupe em procurar-me quando eu não estiver aqui. Preciso refugiar-me para onde não há mapa. Onde minha solidão possa ser admitida".

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Se cuida

Todo ano, em toda data comemorativa, sempre tem alguém que fala mais ou menos assim: "dia das mães é todo dia do ano", "dia das crianças é todo dia do ano", "dia da mulher é todo dia do ano"... blá, blá, blá...
Deixemos de lado o fato de que toda vez falam a mesma coisa, o ponto deste texto é outro. Sequer envolve datas comemorativas. Envolve ações e sentimentos.
Gostamos de uma pessoa.
Existe, sim, o momento em que se faz uma grande surpresa, uma grande declaração, um ato grandioso para deixar bem claro o quanto a pessoa é especial para nós e quanto a amamos. Fazemos uma declaração, estampamos em jornal, outdoor, luzes, fogos, barulho, espetáculo!
Mas quando a gente sente, e sente de verdade, os outros dias também devem ser contados. O ano inteiro é propício para aquele sentimento.
E para estes dias há os pequenos gestos, alguns detalhes que lembram a pessoa constantemente que ela é gostada, amada.
Uma mensagem de boa noite, um olhar procurando por ela na multidão, uma breve pausa para um café a dois, um bilhete, uma flor, um vídeo que a gente mostra dizendo que nos fez lembrar dela. Tudo vale.
Mas, particularmente, eu adoro usar a expressão "se cuida". Só digo isso para quem é realmente especial.
É uma expressão interessante e até mesmo triste. Explico.
Digo interessante porque pedimos que a pessoa cuide de si, quando na verdade, o nosso desejo é de nós próprios cuidarmos da pessoa. É paradoxo, mas é quase um pedido de ajuda para que a própria pessoa nos ajude a cuidar dela.
Lembra-me uma frase de um autor desconhecido que diz "Dentre todas as formas que eu conheço pra dizer “eu te amo”, a minha preferida é cuidar de você".
Só que é uma expressão triste, porque remete a uma despedida. Odeio despedidas, odeio mesmo. Ainda que seja por um dia mas, a quem me apeguei, não quero distante.
E cuidar lembra fazer parar de doer, acho lindo isso. Fazer sanar as aflições, os males, as ansiedades. Cuidar é a forma mais sublime de amar uma pessoa. Por isso é que a bem poucos digo "se cuida".
Porque quem ama, cuida. E eu amo intensamente, mas poucos.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Um pequeno trecho de meu novo romance

Compartilho agora um breve trecho de um romance que estou criando:

Depois de todo o brilho, da luz, das surpresas que foram feitas naquela noite, ele resolveu acompanhá-la até sua casa.
- Que show! Foi você mesmo que fez este desenho? - perguntou ela, referindo-se ao presente que acabou de ganhar dele, um desenho de seu rosto.
- Sim. Desculpe se não ficou muito bom, faz uns quinze anos que não desenho. - disse o carinha, meio sem jeito.
- Gostei muito! Gostei de tudo, do desenho, do bolo, dos bombons, da surpresa. Nunca ganhei um bolo. - emendou ela.
Neste momento ele pensou que fez algo certo: fez por ela algo que nunca fizeram. Ponto para ele, que não queria nem por um momento parecer-se com a maioria dos caras.
- Mas queria esclarecer uma coisa - disse ele, cortando o silêncio do momento - tudo o que fiz para você hoje, as surpresas, os presentes e tudo o mais não representam nada, absolutamente nada, se comparados com aquilo que você me presenteou. Faz quinze anos que não desenho, faz dois anos que parei de escrever poemas e há um ano não escrevo outros textos. E você, mesmo sem saber, me motivou a fazer tudo isso novamente.
O vento soprou suave entre eles. Ele olhou para o céu. O local era muito escuro e ele ficou encantado com tantas estrelas que estava conseguindo ver. Mais encantado ainda com a estrela em sua frente.
- Já lhe disse outro dia - continuou ele - que eu me odeio. Sem explicação, sem motivo, simplesmente desde a juventude tenho-me como inimigo. Mas, inexplicavelmente, em todas as vezes que tomo café com você, eu sinto vontade de viver para sempre. E os pequenos detalhes que percebo de você em relação a mim me fazem querer gostar de mim. Sou eu que devo agradecer por me devolver tudo isso - concluiu.
Quando se abraçaram, mais uma vez, ele sabia que era chegada a hora de partir, retornar para seu mundo sem inspiração e de ódio-próprio. Ele beijou seu rosto, apertou sua mão e disse até breve.
E ele se foi... desejando ter ficado. Tanto na presença, quanto no pensamento dela. Onde até agora ele não tem certeza se está.

Esperando por mim

O título deste meu texto é semelhante à música cantada por Renato Russo.
Ouvi ela hoje e chorei. A beleza da canção pode ser relativa, eu acho linda, mas há quem não goste. O que me machucou mesmo foi a letra.
"Acho que você não percebeu, meu sorriso era sincero. Sou tão cínico às vezes. O tempo todo estou tentando me defender". E a gente busca ter vislumbres de paz ao lado de quem gostaríamos que fosse nosso ponto de segurança. Como é difícil estar vivendo em descompasso com sua natureza. Que complicado é viver como se estivesse vivo, estando-se já morto.
"Hoje à tarde foi um dia bom. Saí pra caminhar com meu pai. Conversamos sobre coisas da vida e tivemos um momento de paz". Queria ter a companhia de meu pai, para poder conversar sobre as coisas da vida. Na verdade, queria ir com ele no lago e ter talvez um momento de paz. Não aproveitei meu pai quando o tinha. Quando a gente é adolescente, é jovem, acha que nosso pai é antiquado e não aproveita. Hoje vejo que meu pai talvez fosse o único igual a mim. Percebo que dele herdei meus dons de escrever, desenhar, tocar violão. 
Não, meu pai não escrevia poemas ou crônicas, ele não desenhava e também não tocava nenhum instrumento. Mas a poesia que está incutida em meu ser não veio de outro lugar senão dele. As formas de expressão não são o mais importante, se a Poesia não existir. E essa veio de meu pai. 
"É de noite que tudo faz sentido, no silêncio não ouço meus gritos". E é dentro de mim, onde o que há é uma eterna noite, que encontro meus sentidos, minhas explicações. Quando estou quieto (e fico muito tempo quieto) é que os pensamentos gritantes se aquietam e eu consigo raciocinar. Consigo classificar meus raciocínios e sentimentos. Consigo, dia após dia, vez após vez, chegar à conclusão de que aqui (neste mundo) não sou feliz. Não importa o prisma, não importa as cores com que pinto, não importa o ângulo ou lado por que olho. Definitivamente, a conclusão é: não é isso.
"E o que disserem meu pai sempre esteve esperando por mim". Eu... ahn... então... Não consigo comentar isso... desculpem...
E me desculpem o desabafo.
Desabafo de quem está se perdendo e percebe que isso não faz a menor diferença. Nem para mim, nem para ninguém. "Estamos vivendo e o que disserem... os nossos dias serão para sempre".


*todas as citações são da música "Esperando Por Mim" - Legião Urbana.