quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Ensaio sobre minha depressão

Eu ia começar culpando o final de ano pelo sentimento inferior que me acomete. Mas não é data, não são épocas... nem é a chuva que faz eu ficar assim. Não é climático. São ações e omissões. E esperanças inalcançáveis e expectativas frustradas.
Não sei lidar com perda e com distância.
Por isso choro em despedidas. Chorava toda semana quando meu pai viajava para ir trabalhar. Chorei igualmente quando ele nunca mais voltou de um leito hospitalar. Era a mesma tristeza.
Não gosto de ir a velórios. E me perguntam: quem gosta? Mas ninguém entende. O velório é nosso lugar último, uma madrugada fria de despedida e de lá, depois que eu volto pra casa, levo uma semana para conseguir voltar totalmente.
Não gosto de ir a hospitais. Porque a gente vê a pessoa e volta sem ela. E toda vez que saio do hospital, volto pela metade e nunca mais encontro minha parte que falta e que fica perdida pelos corredores.
Não gosto que tirem férias. E não é inveja. Tem sabor de perda olhar para o lugar vazio.
E não gosto de ser tratado diferente dos demais. Não gosto de ser o melhor amigo pró-forma e descartável que está lá para o apoio mas não para os agrados. Não gosto de ver carinhos desperdiçados com quem não merece.
Não gosto de ver quem eu gosto se desvalorizar diante de pessoas más.
Não gosto de ver quem me rodeia dizendo me amar ficar procurando erros para me criticar.
Não gosto que virem a cara para mim.
Eu não disponho de um anestésico que me tire a dor de uma decepção. Pelo contrário, a mim me dói de dez a cem vezes mais – foi o que me disse o neurologista. E isso só porque eu sei sentir (poetas me entendem).
Eu esqueço de tomar remédios, esqueço de buscar alguém, esqueço de pagar a conta de telefone. Mas nunca me esqueci da professora que disse que eu nunca chegaria aos pés de Manuel Bandeira.
Nunca esqueci da maneira como fui tratado mal por quem eu queria bem.
E não gosto que se preocupem comigo. Gosto que deixem eu me preocupar com outros, porque só sinto que existo quando sirvo para cuidar de alguém. E dou tanto de minha energia para fazer outros felizes, que depois me faz falta. Mas se não for assim, também não fico bem. Entrego-me inteiro pela(s) pessoa(s).
Mas fico triste de o cuidador não valer mais do que o brincalhão, do que o abusado, do que do mal intencionado.
Amo sorrisos para mim, amo abraços, amo carinho. Odeio não os receber quando são tão fáceis para os outros ganhá-los.
Odeio que confundam minhas intenções. Porque não sou mau e não há segundas intenções. Sou óbvio.
Não gosto de ser tocado, mas gosto de segurar na mão.
E quando a tarde morre... bem… acho que eu morro uma vez por dia há 40 anos.
Por fim, se me evitam, se me bloqueiam, se me ignoram, sinto como se… como se… ah, não faça isso comigo, você não faz ideia de como me dói.
Não preciso de pena, não preciso de uma esmola sentimental.
Preciso na verdade de companhia. De uma mente para acompanhar a minha. É além do físico. Somos em tantos, sei que estão todos por aí.
Mas ser diferente me faz sentir sozinho no meio da multidão. E eu odeio solidão... apesar de ser minha melhor amiga.