quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A lógica da sopa de fubá

A 30 anos atrás, com meus onze anos, estudava eu na Escola Estadual Dr. Almeida Vergueiro, em Espírito Santo do Pinhal. Era gordinho, mas não é por isso que vou falar exclusivamente da merenda da época escolar.
Vou referir-me à refeição dos intervalos exclusivamente porque raciocinei em uma lógica fundamental que acontece muito na vida da gente.
Eu adorava a sopa de fubá que era servida. Principalmente porque a merendeira colocava ovos inteiros para cozinharem na sopa. Era o idílio para mim!
Desejava tanto que todos os dias servissem aquela sopa! Minha veneração era tamanha que eu pedia para minha mãe fazer um prato semelhante em casa. Era o manjar dos deuses para mim.
Foi assim por alguns anos e, de repente, (entendam agora a lógica) eu simplesmente parei de gostar de sopa de fubá. Não enjoei, não tive experiência traumática, não queimei a língua, não aconteceu absolutamente nada.
Eu simplesmente acordei um dia e não quis mais comer sopa de fubá. Inexplicavelmente minha paixão havia desaparecido. E o arroz e feijão passou a ser mais interessante. Até o arroz com peixe em molho de tomate parecia mais atraente.
A sopa não me causava nojo, não me causava repulsa, não me trazia qualquer desconforto. Eu só não sentia mais atração por ela. Era um prato normal, que ocupava talvez a sétima ou oitava posição no ranking de comidas preferidas.
Passaram-se trinta anos e nada daquela paixão pela sopa voltar. Se tem, desfruto. Mas não faço questão. Nem me emociono quando tenho dela para provar.
É algo sem explicação, mas que mostra o funcionamento do querer humano: a pessoa apaixonada por alguém não para de pensar, manda recados, deseja, faz de tudo para estar presente. E isso pode ser por pouco ou por muito tempo.
De repente, o interesse some. E a pessoa torna-se fria, apática, inexplicavelmente indiferente. Não quer mais conversar, trata com desdém, como se aquele que um dia foi seu grande interesse agora não passa de mais uma pessoa no mundo.
Essa é a lógica da sopa. Um dia se quer, depois a vontade some.
Porque seres humanos são egoístas, agem consoante os próprios desejos. Hoje querem, amanhã o umbigo não deseja mais.
Poetas não fazem assim com humanos (só com as sopas). E se você for vítima de uma troca inesperada de ventos, não dê sopa para a tristeza. Valorize-se. Você vale muito mais que uma sopa de fubá.


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